sábado, 7 de novembro de 2009

Aristóteles e os sinais diários

"Uma vida completa é feita a acrescentar. Uma andorinha só não faz verão, nem um dia. E assim também um dia, ou um curto espaço de tempo, não faz um homem abençoado e feliz."- Aristóteles

Como o PGM já deve ter percebido, isto é uma nitida afronta aos gostos dele. O autor, apesar de ter um nome bem Grego, é tão universal que não sei se lhe podemos dar nacionalidade, mas...bem...o que fazer...eu gosto dele, até porque a sua filosfia era empirista e procurava distanciar-se o máximo possível da mera teoria e fixar-se na "praxis", ou prática.

A frase apresentada não se prende com o tema anterior (o Futuro) e admito que é deliberado, dado que aguardo textos de um astrólogo e de um físico para continuar, pelo que decidí abordar um tema mais mundano e constante na existência do ser humano..a felicidade.

Lembro-me de quando era adolescente defender uma tese perfeitamente aterradora sobre este tema e que se prendia, penso eu agora...cerca de década e meia depois, com a minha incapacidade de me relacionar com os meus "pares" de forma natural.

A tese resumia-se ao seguinte..."a vida é um mar de lágrimas, aborrecimento, dôr e frustação, com picos elevados de felicidade, deslumbramento e emoção que DEVEM compensar e «dar lucro» face à constante tristeza e insatisfação que a marca".

Como podem ver, uma criança que dos 15 aos 25 defende uma tese aberrante desta natureza não deve estar muito bem com a própria vida ou com o mundo que a rodeia.

Tenho que admitir que esta tese me serviu de deculpa para efectivamente não ter aproveitado tanto da vida como poderia ter aproveitado, vítima das minhas frustrações medos e ansiedades (e ainda assim penso ter aproveitado bastante), mas só uns aninhos para além dos 27 anos é que me apercebí da burrice que professei duarnte tantos anos, e hoje vejo-me inclinado a gostar mais desta frase de Aristóteles, por ter mais sentido e me parecer mais correcta.

Efectivamente a vida deve ser um somatório, e o facto de termos uma infancia feliz não faz de nós felizes...da mesma maneira que o facto de termos uma infância infeliz não faz de nós infelizes...da mesma maneira que a felicidade não é um dia, nem uma experiência...nem um periodo...é um resultado a atingir diariamente (e não ao fim de anos).

Todos deveriamos ser felizes sentir-nos completos, diariamente ou pelo menos maioritariamente, e se não o somos...não devemos iludir-nos por pequenos momentos dessa emoção.

E muitos livros de auto-ajuda vemos reflectidas frases que me parecem ser perigosas...como sejam "a felicidade e o bem estar dependem de nós!". "A ausência de Felicidade represnta que estamos a fazer algo de mau para nós mesmos". Enveredando depois por um sem número de técnicas e teorias de mentalização que, senhores e senhoras, lamento opinar que são uma grande fantochada, pois apenas são concebíveis e praticáveis por quem não tem mais nada para fazer.

No entanto concordo com um principio apresentado...depende de nós...mas muitas vezes não depende da nossa vontade e sim da nossa sensibilidade ou consciência sobre nós próprios... e essa consciência não é tão difícil de alcançar como aparenta ser em todos os textos (na minha opinião)...ela está a flôr da pele..

A consciência de que vos falo baseia-se nas nossas sensações diárias.

Todos nós nos sentimos bem e mal perante determinadas situações, certo?

Essa é toda a consciência que precisamos...acompanhar essas sensações durante uns dias e lidar com elas como avisos internos daquilo que estamos a fazer bem ou mal para o nosso espírito/mente/corpo/alma...se prestarmos atenção, vemos que o nosso interior nos diz muito sobre o mundo e sobre o meio em que vivemos diariamente.

Exemplo prático: Diariamente dedico-me, à noite a vêr televisão para descontrair...a partir de uma determinada hora (sensivelmente 00h/1h) começo a sentir-me mal comigo mesmo...irrequieto...a fazer "zapping"...a levantar-me para ir à cozinha fumar um cigarro...e prolongo este acto de sofrimento por pelo menos mais duas horas antes de me ir deitar..porquê?

Porque intrinsicamente eu sei que estou a extender o meu periodo de lazer para além do saúdavel e começo a perder horas de sono que me são preciosas...e opto por ficar acordado à espera de um momento de paz/esclarecimento a respeito do dia que, admito, raramente vem...estou à espera do "pico" de emoção que tanto professava enquanto adolescente.

O mesmo se aplica a outros exemplos mais complexos...que abordarei mais tarde.

Em conclusão...o barómetro existe e está activo...não tem magia, nem é um mistério que se atinge mediante anos de estudo, aulas de meditação e workshops de consciêncialização...chama-se stress, satisfação e insatisfação...senti-mo-lo dentro de nós todos os dias, e fomos ensinados a não lhe prestar atenção dando-lhe nomes e explicações aparentemente racionais (como sejam resultado de uma vida urbana...cansaço...traumas...etc.).

Qualquer sensação é uma mensagem do nosso interior, um sinal quanto à utilidade das nossas acções..incluindo o tédio e o vazio...que normalmente são um sinal de que deveriamos levantar-nos e fazer algo produtivo.

Enquanto olhamos para os céus à procura de sinais divinos, esquecemo-nos de olhar para dentro de nós...o local de onde eles sempre vieram..esse é um dos sentidos da ideia de que fomos criados à Sua imagem e semelhança...o sentido de que somos consciêntes de nós próprios e do mundo que nos rodeia.

Uma dica vos deixo...qualquer sensação "psicologica" é acompanhada de uma sensação física..corporal...focalizem-se nisso...focalizem-se no que sentem diariamente durante um ou dois dias sempre que puderem...vão ver que se descobre muito sobre nós próprios...sem ter que ir para o Yoga...

E talvez assim comecemos a ver a adição Aristotélica a tomar forma e, fazendo-o, poderemos decidir de forma esclarecida quanto aos rumos gerais das nossas vidas...o que vos parece?.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Futuro- Para onde deslizamos?

Pois bem, honra seja feita ao ilustre PGM que aqui nos presenteou com uma visão bastante prática e esclarecedora sobre a sua posição cultural anti-grega e sobre as suas posições futuras a respeito de interacção com os média.
Apesar de não partilhar dos seus gostos e de, a partir deste momento, fazendo juz à fobia que se instalou na nossa sociedade, não aceitar encontrar-me com ele durante os próximos meses para evitar contágios de Gripe A, entendo na sua "conversa vadia" um bom sentido da intenção deste blog/projecto.
Para uns poderá ser enquadrado como uma construção prática e metódica...para outros, como uma mera conversa vadia...pois bem...não me oponho e considero bem vinda a proposta.
Façamos então conversas vadias, sempre com a intenção metódica, ou não, de partilharmos experiências, visões e ideias sobre a realidade e sobre o mundo...
Feito este parêntese, passo então ao tema.
Como vos disse na primeira entrada deste recomeço, pretendia debruçar-me sobre as três questões filosóficas ou três estados de percepção/manifestação do ser humano e da sua psique (ou alma).
Começarei por aquele que sempre me fascinou mais...o futuro.
Alterando a premissa base da pergunta que, no caso de "para onde vamos?" seria o "movimento", sugiro uma abordagem distinta..mais determinista...que se baseia numa ideia que anda muito na voga (ou pelo menos andou) da física quântica que afirma (de forma teórica, claro) que o futuro existe já e agora.
A alteração sugerida implica o abandono da noção linear de tempo algo, que, apesar de difícil, é possível para os nossos fantásticos cérebros de Homo Sapiens Sapiens...implica abstrair-nos da nossa percepção de tempo.
Existem teorias (para cuja enumeração peço o apoio posterior do amigo PGM muito mais versado nestas matérias do que eu, ou de um autor de seu conhecimento que procuramos cativar para este Blog) actuais da física que defendem, de forma muito laica, que o futuro é uma realidade que se está a processar já hoje. Neste momento. Numa "dimensão" distinta da nossa (ou numa "linha" que pode até ser paralela). Aliás, se bem lembro, esta seria um das interpretações da teoria da Relatividade de Einstein.
Esta "percepção" do futuro, aparentemente inovadora, permitir-nos-ia, munidos com os correctos meios tecnológicos, "avançar" no tempo, a partir do agora, dando saltos "dimensionais" (v. teorias sobre as possíveis aplicações de "worm holes" em viagens no tempo)e, em primeira linha, observar o passado e o futuro desde o "agora".
O autor e físico Arthur C. Clarke aborda este tema (mas sobre uma mera perspectiva de visão) em duas obras de referência com os nomes "Childhood's End" e "The light of other days" (escrita em colaboração com o autor Stephen Baxter).
Ora bem..se bem que nos é possível conceber esta visão "não linear" do tempo (futuro/passado/presente...agora!) quando apoiada em bases teóricas da ciência moderna, pergunto-me...e com base na tradição histórica cultural e religiosa?.
Passo a explicar...nas várias sociedades e culturas ocidentais persistem mitos sobre poderes mediúnicos...sobre profetas e profecias...existem e mantém-se na voga métodos divinatórios, baseados em ciências matemáticas como seja a Astrologia (causa de ser da intocável astronomia e astrofísica), e todos eles são remetidos à ignóbil prateleira de "mitos e superstições ignorantes".
Ora, se analisarmos friamente estes mitos e lendas e até métodos (os dignos de análise e não, como é óbvio, as previsões do Prof. Karimba), não estaremos perante um mesmo fenómeno que aquele defendido pela física quântica?
O que quero dizer com isto é apenas o seguinte, as ditas teorias pretendem vir a ser demonstradas mediante métodos tecnológicos que não estão ainda ao nosso alcance, no entanto, não estarão a ser demonstradas já através de mentes com um equilíbrio (ou desequilíbrio) específico? Não o terão sido ao longo da história da humanidade nos vários episódios proféticos? Não estarão subjacentes aos princípios da Astrologia “atalhos” proporcionados pela evolução intuitiva de milhões de mentes ao longo da história que permitem ao utilizador adequadamente treinado aceder a essas “dimensões” mediante cálculos matemáticos e conjugações de ângulos?
A mim parece-me que é um tema a abordar com um pouco mais de tempo e dados, que desde já vos convido a fornecerem (quem os tiver), embora admita que me vejo inclinado no sentido de que talvez haja mais de verdade nesses ditos mitos e lendas do que aquilo que se imagina.
Sabendo que, chegando a alguma conclusão, poderemos informar o PGM sobre as suas futuras probabilidades de ser um comentador mediático.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O padre traficante de armas

Convidaram-me, ontem, para escrever umas linhas num jornal sobre a análise, jurídica, do caso do “padre traficante de armas”. Foi o que me foi dito.
Pensei um pouco sobre o assunto e cheguei à conclusão, jurídica e deontologicamente correcta, de que não devemos fazer pré juízos sobre situações das quais não conhecemos todos os aspectos, e, sobretudo, porque vão ser apreciadas e esmiuçadas em sede própria, a sala de audiências de um tribunal, se o processo lá chegar.
Tendo decidido não comentar o assunto publicamente num jornal, regional é certo, não queria deixar de trocar umas ideias aqui no Teorema do George.
Hoje em dia, qualquer um que queira singrar em termos profissionais, seja em que profissão for, das duas uma: ou tem acesso à comunicação social, escreve umas merdas (tipo isto, mas dando um outro enquadramento e solenidade à coisa) e safa-se; ou não tem acesso, e quilha-se.
Vemos todos os dias na televisão que todos (quase) os advogados conhecidos o são porque comentavam casos nas televisões ou davam palpites sobre assuntos legislativos.
Os políticos que podem almejar chegar a presidentes de um partido (com essa honrosa excepção dos comunistas) são os que fazem comentário político nas TV’s.
Os médicos mais conhecidos ( e consequentemente com mais pacientes) são os que, por alguma razão, também são figuras conhecidas do grande público.
Etc., etc.
Antigamente “era-se alguém” quando se tinha brio e sucesso profissional, sendo-se reconhecido pelos pares e por todos aqueles que usufruíam do nosso trabalho.
Hoje “é-se alguém” se aparecer no Telejornal (ou no Jornal da Noite, ou naquela coisa da Manuela Moura Guedes) a mandar bocas sobre qualquer coisa, com tudo o que daí advém.
Da cultura do ser, passamos à cultura do parecer. O que já não é nada de novo, sempre existiu, em todo o lado, mas voltamos a ver um recrudescimento desta situação.
Aqui há uns tempos tive um caso que poderia ter-se tornado numa questão bastante conhecida, uma vez que o chegou a ser no Brasil. Tratava-se de um processo envolvendo uma menor, e no qual um cidadão brasileiro, residente no Brasil, tendo a guarda de uma menor, concedida pelas autoridades brasileiras, acusava uma cidadã brasileira, minha cliente, mas residente em Portugal, de ter raptado essa menor, filha de ambos, e que com ela está, actualmente, a viver em Portugal.
Sem entrar em pormenores, quer a minha cliente, quer eu próprio, fomos assolapados com milhentos de pedidos de entrevistas pelas televisões brasileiras, uma vez que o caso abria jornais nacionais no Brasil.
Nunca abrimos a boca para dizer fosse o que fosse.
Ganhamos o caso e a menor vive hoje em Portugal com a mãe, pese embora tenha tido uma ordem internacional de busca emitida pelas autoridades brasileiras.
Esta situação veio-me ontem repetidamente à cabeça enquanto pensava se havia de escrever alguma coisa sobre o coitado do padre, que tinha um arsenal em casa, porque se queria sentir seguro, ou, nas palavras do Bispo tutelar, era caçador e esta coisa da caça desde há centenas de anos que está enraizada no clero, sobretudo no clero que opera no interior do país.
E foi por isso, por me lembrar do que aquela mãe e aquela criança me disseram quando acabou o processo, que resolvi não comentar o caso do padre.
Acima de tudo, agradeceram-me por poderem continuar a ter uma vida normal sempre que saem à rua, e que a miúda vai para a escola.
Devo confessar que, para além disso, tive algum receio que pudesse encontrar o padre nalguma montaria, e não me fosse ele confundir com um javali...
Analisando a coisa, hoje, vejo que me quilhei.
Se tivesse agido de forma diferente, publicitando a minha vitória jurídica aos quatro ventos, se calhar já estava a ganhar tanto guito, que daqui a uns 10 aninhos reformava-me, comprava uma quinta no Alentejo, com produção vinícola própria, e escrevia uns livros.
Assim tenho que andar a bulir até às tantas todos os dias, para poder comprar os 100.000 brinquedos que a minha filha não tem e que quer (e quer todos).
Estava agora a ouvir um velhinho tema de um grupo americano, que ainda existe, mas que ficou conhecidos nos idos anos 80, os Pixies (percursores de quase todos os grupos conhecidos, surgidos no início dos anos 90, tipo Nirvana, Pearl Jam e muitos outros) e tendo como título “Where is my mind?”.
E, de facto, “where was my mind”, quando me armei em bom samaritano para as filhas das minhas clientes poderem agradecer-me, ou para o padre traficante de armas não ver mais um comentário eventualmente desabonatório em termos jurídicos aos actos que, supostamente, praticou?
Não sei onde estava, mas não devia estar no sítio certo.
A partir de hoje, e tendo como base a premissa essencial do Teorema de George “pensar e fazer fora daquilo que normalmente pensaria ou faria”, decidi que, logo que tenha possibilidade, vão ver a minha linda cara chapada nos jornais e nas televisões.
E, se puder, vou à caça com o padre...
PGM