segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O padre traficante de armas

Convidaram-me, ontem, para escrever umas linhas num jornal sobre a análise, jurídica, do caso do “padre traficante de armas”. Foi o que me foi dito.
Pensei um pouco sobre o assunto e cheguei à conclusão, jurídica e deontologicamente correcta, de que não devemos fazer pré juízos sobre situações das quais não conhecemos todos os aspectos, e, sobretudo, porque vão ser apreciadas e esmiuçadas em sede própria, a sala de audiências de um tribunal, se o processo lá chegar.
Tendo decidido não comentar o assunto publicamente num jornal, regional é certo, não queria deixar de trocar umas ideias aqui no Teorema do George.
Hoje em dia, qualquer um que queira singrar em termos profissionais, seja em que profissão for, das duas uma: ou tem acesso à comunicação social, escreve umas merdas (tipo isto, mas dando um outro enquadramento e solenidade à coisa) e safa-se; ou não tem acesso, e quilha-se.
Vemos todos os dias na televisão que todos (quase) os advogados conhecidos o são porque comentavam casos nas televisões ou davam palpites sobre assuntos legislativos.
Os políticos que podem almejar chegar a presidentes de um partido (com essa honrosa excepção dos comunistas) são os que fazem comentário político nas TV’s.
Os médicos mais conhecidos ( e consequentemente com mais pacientes) são os que, por alguma razão, também são figuras conhecidas do grande público.
Etc., etc.
Antigamente “era-se alguém” quando se tinha brio e sucesso profissional, sendo-se reconhecido pelos pares e por todos aqueles que usufruíam do nosso trabalho.
Hoje “é-se alguém” se aparecer no Telejornal (ou no Jornal da Noite, ou naquela coisa da Manuela Moura Guedes) a mandar bocas sobre qualquer coisa, com tudo o que daí advém.
Da cultura do ser, passamos à cultura do parecer. O que já não é nada de novo, sempre existiu, em todo o lado, mas voltamos a ver um recrudescimento desta situação.
Aqui há uns tempos tive um caso que poderia ter-se tornado numa questão bastante conhecida, uma vez que o chegou a ser no Brasil. Tratava-se de um processo envolvendo uma menor, e no qual um cidadão brasileiro, residente no Brasil, tendo a guarda de uma menor, concedida pelas autoridades brasileiras, acusava uma cidadã brasileira, minha cliente, mas residente em Portugal, de ter raptado essa menor, filha de ambos, e que com ela está, actualmente, a viver em Portugal.
Sem entrar em pormenores, quer a minha cliente, quer eu próprio, fomos assolapados com milhentos de pedidos de entrevistas pelas televisões brasileiras, uma vez que o caso abria jornais nacionais no Brasil.
Nunca abrimos a boca para dizer fosse o que fosse.
Ganhamos o caso e a menor vive hoje em Portugal com a mãe, pese embora tenha tido uma ordem internacional de busca emitida pelas autoridades brasileiras.
Esta situação veio-me ontem repetidamente à cabeça enquanto pensava se havia de escrever alguma coisa sobre o coitado do padre, que tinha um arsenal em casa, porque se queria sentir seguro, ou, nas palavras do Bispo tutelar, era caçador e esta coisa da caça desde há centenas de anos que está enraizada no clero, sobretudo no clero que opera no interior do país.
E foi por isso, por me lembrar do que aquela mãe e aquela criança me disseram quando acabou o processo, que resolvi não comentar o caso do padre.
Acima de tudo, agradeceram-me por poderem continuar a ter uma vida normal sempre que saem à rua, e que a miúda vai para a escola.
Devo confessar que, para além disso, tive algum receio que pudesse encontrar o padre nalguma montaria, e não me fosse ele confundir com um javali...
Analisando a coisa, hoje, vejo que me quilhei.
Se tivesse agido de forma diferente, publicitando a minha vitória jurídica aos quatro ventos, se calhar já estava a ganhar tanto guito, que daqui a uns 10 aninhos reformava-me, comprava uma quinta no Alentejo, com produção vinícola própria, e escrevia uns livros.
Assim tenho que andar a bulir até às tantas todos os dias, para poder comprar os 100.000 brinquedos que a minha filha não tem e que quer (e quer todos).
Estava agora a ouvir um velhinho tema de um grupo americano, que ainda existe, mas que ficou conhecidos nos idos anos 80, os Pixies (percursores de quase todos os grupos conhecidos, surgidos no início dos anos 90, tipo Nirvana, Pearl Jam e muitos outros) e tendo como título “Where is my mind?”.
E, de facto, “where was my mind”, quando me armei em bom samaritano para as filhas das minhas clientes poderem agradecer-me, ou para o padre traficante de armas não ver mais um comentário eventualmente desabonatório em termos jurídicos aos actos que, supostamente, praticou?
Não sei onde estava, mas não devia estar no sítio certo.
A partir de hoje, e tendo como base a premissa essencial do Teorema de George “pensar e fazer fora daquilo que normalmente pensaria ou faria”, decidi que, logo que tenha possibilidade, vão ver a minha linda cara chapada nos jornais e nas televisões.
E, se puder, vou à caça com o padre...
PGM