terça-feira, 23 de março de 2010

A relva, a Lua ou o infinito?

Quando era mais novo, costumava usar uma expressão de influência anglo-saxónica que, pensava eu, me definia bastante bem..."almeja a Lua e chegarás aos céus...almeja as estrelas e chegarás à Lua".

Engraçada a expressão, deixava de fora o infinito...

Logo, "e se almejarmos TODAS AS ESTRELAS...o UNIVERSO...o que poderemos alcançar?" pensava eu desde a inocência dos meus 14 anos...

É bem mais fácil de "filosofar" sobre este princípio do que vive-lo, não acham?

Efectivamente são estas frases bombásticas e altamente "profundas" que nos invadem diariamente e que, inevitavelmente, nos fazem sentir como formiguinhas a almejar a relva, porque, sejamos realistas, a vida diária não nos permite almejar mais nada...ou será que permite?

Hoje não vos trago resultados de experiências, trago meramente opiniões e dúvidas (se calhar derivadas até da minha luta diária pelo meu pedacinho de relva- ou "grama" como se diz no Brasil).

É nos difícil (para não dizer impossível) diariamente olharmos para o céu e ver mais do que pequenos pontos de luz que pouco ou nada nos dizem (quer à nossa sensibilidade quer à nossa razão)...e quem escreve e publicita estas frases bombásticas se calhar está já alheado dessa mesma luta pela sobrevivência em que a grande maioria de nós se encontra envolvido diariamente.

Para a grande maioria de nós, o trabalho esforçado diário preenchido de rotinas e obrigações transforma-nos lentamente em amebas multicelulares que vivem de impulsos programados (por nós próprios) e que tem por fim evitar a percepção de realidades maiores que as do nosso dia-a-dia.

A esta atitude, senhoras e senhores, nada há, na minha opinião, a criticar...faz parte do nosso instinto de sobrevivência fazê-lo!

Da mesma forma que faz parte desse mesmo instinto sucumbir a medos, tentações, desejos, paixões, seguir ditames morais, quebra-los e...bem sucumbir a tudo o que o nosso inconsciente nos trás e oferece, porque é essa a função do inconsciente.

É difícil ver as estrelas...mais difícil ainda sonhar com elas...e muito mais inalcançável almejar o "infinito"...daí a armadilha da frase inicial.

Uma vez mais coloca-nos perante um objectivo aparentemente simples, mas...admitamos...impossível (pelo menos com a regularidade que nos parece ser pedida pela frase...que é diária).

Almejar a Lua com uma regularidade anual é provavelmente um mega sucesso para quem, entre nós, pobres mortais com ocupações (e preocupações) diárias desgastantes, o consiga fazer! E se o fizermos com uma regularidade bianual...sucesso, pois será essa a nossa diferença!

A percepção da realidade não está só dependente de nós..os nossos sonhos também não...e isso é uma realidade que para a grande maioria é incontornável!

No entanto...existe algo de imediato no prazer de ver uma Lua cheia...e nesses momentos, talvez seja mais fácil sonhar com o momento em que a iremos tocar...é esse o momento que devemos estimar..é essa a porta da percepção que atravessada implica que demos um passo mais na nossa evolução pessoal e que esse passo é possível...se conseguimos sonhar 1 vez por ano com a Lua (ou com a Lotaria...) então estaremos um passo mais próximos de a alcançar (ou de jogar no bilhete...) e não nos devemos massacrar com o facto de não o fazermos diariamente...nem nos devemos impressionar com quem o faz diariamente (pois se o fazem ou são "aluados" ou talvez mais desocupados...)

Temos todos nós, que uma vez mais começar a ser mais pacientes e tolerantes e essa tolerância passa, em primeiro lugar, pelas nossas falhas e imperfeições...tolerarmos a nossa raiz humana e animal (sim...porque na realidade não deixámos de ser animais pelo mero facto de possuirmos uma característica genética que nos deu um Neocortex em vez de um mero córtex cerebral).

Aceitando-nos como somos (e todos nós por vezes ou na maioria das vezes somos preguiçosos e limitados) não estaremos a libertar a nossa percepção e imaginação para ir mais além?

Pelo menos não estaremos a ocupa-la com informação desnecessária...que é a concentração naquilo que achamos que deveríamos ser, e não somos.

Comecemos então pelo básico...descobrir-nos a nós mesmos...comecemos pela relva, sem pretensões absolutistas e/ou irrealistas.

Quando conseguirmos ver-nos como somos com limitações, defeitos e virtudes, talvez estejamos prontos para pensarmos como queremos ser...porque só aí teremos a noção daquilo que efectivamente queremos mudar!

De outra forma estaremos meramente a perpetuar sonhos infantis que apenas nos servem para nos deixar infelizes...porque, admitamos...se aos 45 não formos milionários...muito provavelmente (mais ainda se não jogarmos na lotaria) não o seremos aos 50...pelo que se calhar não estamos destinados a sê-lo.

Mas o não ser milionário não quer dizer que não tenhamos uma função mais importante que um milionário e/ou que a nossa esposa seja pior do que a dele.

O facto de que ele viaje mais do que nós não quer dizer que ele aproveite melhor a vida...apenas que tem uma vida diferente e provavelmente igualmente esforçada, noutros campos que consideramos garantidos, como seja o descanso ou a paz connosco mesmos.

Olhemos para o que somos antes de olharmos para o que queremos ser..olhemos para o que queremos antes de querer...e se for intenso...vamos saber que queremos e PORQUÊ...o que é meio passo para alcançar...porque é nesse PORQUÊ que muitas vezes está a nossa principal limitação..

Se quisermos...teremos...e o PORQUÊ é o que nos vai levar a distinguir.

Logo...antes de nos lançarmos à Lua...entendamos que para lá chegar temos que saber o que é a relva...aceitar que a mesma é o nosso meio natural e depois...bem...depois...perceber que a Lua e as estrelas são alcançáveis...se as quisermos ao ponto de sair da relva...se não...aproveitemos o cheiro e a frescura da mesma numa tarde de verão...não é menos digno nem menos sonhador.

O infinito...a Deus ou a ele próprio pertence..e, sejamos realistas, ninguém sabe o que é o Infinito...talvez só Deus mesmo.

Sei que fui mais abstracto que o normal...mas...terei sido mesmo?