segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Demónios (Parte 2)

Hoje fui confrontado com uma crítica bem intensa ao meu último "post", onde me diziam que do mesmo apenas se aproveitava a definição de "demónios" da Wikkipedia, e que, após uma re-leitura atenta, me vejo obrigado a concordar.

O referido "post" está efectivamente "endemoniado"...carregado de ideias dispersas e não estruturadas que admito poderão não fazer sentido nenhum para ninguém que não o seu autor...e assim sendo, peço-vos a todos desculpas pelo mesmo.

No entanto, e dado que o tema da definição de "demónio" me fascinou durante as últimas semanas, gostava de me manter no mesmo e partilhar convosco alguns pensamentos.

Peço-vos que vão ver a definição da Wikkipedia que publiquei no último "post" (e para a qual remeto agora) "Demónio" in Wikkipedia...abstraiam-se do "post"...e focalizem-se na definição clássica de "demónio".

Não vos parece surpreendente, que originalmente a palavra demónio, quando criada pelos gregos, significava a voz interior, ou o Deus que vive dentro de nós e nos aconselha?

Mais se pensarem então que a Bíblia, como a conhecemos, no seu Velho e Novo Testamento (e em especial no Novo), nasce no período em que esta palavra detinha o seu sentido original...e em que o Grego era uma língua universal (um pouco como o é o inglês hoje em dia).

E que conclusões se poderiam tirar destes dois enunciados?

Mil e uma...no entanto, e correndo o sério risco de parecer um herege (sem no entanto pretender de qualquer forma ou feitio pôr em causa as interpretações sacras das Sagradas Escrituras), eis as dúvidas/pensamentos que esta ideia me suscitou.

Aviso, antes de passar a expô-la, que não sou um letrado da Igreja, e apesar de católico por educação, já não pratico há anos e o meu conhecimento do Velho e Novo Testamento resume-se ao pouco que aprendi e me recordo sobre ambos na catequese (o que NÃO FAZ DE MIM UM ESPECIALISTA...e sim um pseudo-filósofo curioso por conceitos e ideias).

Feita a advertência (típica da minha faceta de Advogado), passo a expor a ideia.

E se o Demónio das Sagradas Escrituras fosse uma segunda manifestação de Deus?...

Explicando-me melhor (para não ferir susceptibilidades)...quando estou a fazer esta pergunta não me estou a referir a nenhum ser demoníaco com asas de morcego e encarnação do mal...estou-me a referir ao conceito de demónio grego...

Ora bem...se para os gregos Demónio representava "a voz interior, ou o Deus que vive dentro de nós e nos aconselha" e uma das primeiras formas de expansão do cristianismo foi em Grego (Evangelho de S. Lucas)...seria normal de pressupor que, quando indagados a respeito de Deus e dos seus sinais a povos e culturas que não falassem hebreu, os apóstolos se referissem a Deus como um "daemon" e não como um deus (para o distinguir da palavra que poderia levar à confusão com uma das múltiplas divindades adoradas pelas culturas politeístas ocidentais).

Aliás, esta perspectiva "intimista" de Deus é uma das características originais do cristianismo, onde se abandona a visão judaica de Deus castigador para adoptar uma visão mais humana de Deus (encarnado no Filho- Cristo- e Pai).

As cosnequencias linguísticas desta confusão podem ser, na minha opinião, bombásticas.

Ora vejamos...se o demónio é uma voz de Deus, então as referencias culturais ao mesmo (influenciadas pelos ensinamentos bíblicos) poderão ser postos em causa...uma vez que se Deus é bondade e amor...a sua voz dentro de nós (o Demónio- Daemon) poderá ser assim tão diferente?

E se aquilo que entendemos por maldade e pecado não forem mais que uma manifestação do Divino em nós...ou seja...a parte de Deus que nos permite optar pelo incorrecto...que nos permite escolher e logo errar?

Se assim for, então o Demónio seria mais uma manifestação de Deus...mais um dos seus dons...o dom da liberdade para fazer escolhas, que nem sempre serão as certas...de ver para além das "ordens" sagradas...para "imaginar" um outro percurso que não aquele que Deus pretende para nós?

E vindo o demónio de Deus (algo que nos ensinam desde pequenos- a história do Anjo Caído...aquele que pôs em causa a Ordem de Deus)...sendo o Demónio mais um dos Seus mistérios...será ele uma encarnação do mal?

Eu penso que não...e apesar de não ser religioso, sou crente...e creio num Deus bondoso...num Deus Pai...ou pelo menos numa entidade universal que tudo Ordena...numa ordem e harmonia universal que não tem espaço para conceitos tão subjectivos como o bem e o mal, certo ou errado...e sim para conceitos como caminhos.

A capacidade de ver um caminho onde a estrada não está marcada enquanto tal...a capacidade de imaginar muito para além da realidade que nos é fornecida pelos nossos sentidos...a capacidade de antever outras actuações para além daquelas que nos são impostas pela sociedade e religiões...a capacidade, no fundo, de criar...essa é parte da chama do divino que arde me nós...e como tal, fruto do "daemon" de que falavam os gregos, no sentido de Deus dentro de nós.

No entanto, essa manifestação do divino (esse dom) por vezes manifesta-se também como algo demoníaco (aqui sim no sentido actual), como uma maldição que nos leva às escolhas incorrectas e incertas...aos erros, pecados e maldades, algo que gostamos de ver como humano, por ser imperfeito...embora, sejamos honestos, a perfeição é também um atributo divino que nos é facultado pela Fé ou pela Imaginação e não pela nossa experiência...pelo que é também ela (a perfeição) fruto dessa voz que nos leva a ver algo que não existe na nossa realidade terrena...e como tal...fruto do nosso "daemon".

Numa análise extrema poderíamos dizer que o nosso contacto com Deus nasce desse "daemon" no sentido grego...que Deus fala connosco através desse mesmo "daemon"..."daemon" que por virtude da semântica e evolução linguística se transformou no seu oposto...no Demónio...

E face a tudo isto eis que o meu "post" anterior se transformou num chorrilho de asneiras...ou então ganhou perspectiva...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Demónios

Na última semana deparei-me com o meu demónio interior...e eis o que descobri a esse respeito:

"Um demónio (português europeu) ou demónio (português brasileiro), ou ainda, daimon ou daemon é originalmente um tipo de ser que em muito se distanciou, mesmo que ainda se assemelhe, aos génios da mitologia árabe, pois ao longo dos anos a sua descrição mudou, e segundo a maior parte das religiões, que dividem-se no mundo de forma maniqueísta, como judaico-cristão, é um ser intermediário entre o homem e Deus, tipicamente descrita como um espírito do Mal, embora originalmente a palavra demónio, criada pelos gregos, signifique a voz interior, ou o deus que vive dentro de nós e nos aconselha (in wikipedia: Wikipedia: Demónio)"

Dada a minha obsessão com a filosofia dita clássica, é óbvio que foi esta definição sublinhada que mais apelou à minha atenção.

Mas vamos por partes...falava-vos do meu demónio e não das definições de demónio...

O meu demónio (eu) é bastante comum...e foi apelidado pela minha religião (católica) de sentido moral e ético.

Trata-se de uma pequena voz que define as "regras" pelas quais devo conduzir a minha vida pessoal e a minha vida social...um "Grilo Falante" chamado consciência do qual dependo diariamente para me guiar pelo tortuoso mundo das decisões pessoais e profissionais.

Todos nós conhecemos esta "voz"...e em maior ou menor medida deixamo-nos guiar por ela confiando, mais ou menos, no que ela nos diz ou nos pede para fazer.

O problema surge quando subitamente vemos que os "conselhos" que esta "voz" nos dá não nos traz qualquer gratificação pessoal, moral ou profissional...nesse momento, deparamo-nos com o nosso "demónio", e o pior é que nesse momento normalmente apercebemo-nos como ele realmente é...igual a nós...cheio de falhas e incertezas...inseguranças e incoerências...e neste momento é quando procuramos Deus...a Voz sobre todas as outras...a perfeição da decisão.

A forma como o procuramos e encontramos varia de religião para religião ou de crença para crença...mas em alguma medida, pelo menos a procura, é comum a todos nós.

O meu revelou-se numa decisão estúpida e inócua...na decisão de seguir para casa ou parar pelo caminho quando voltava de viagem de Múrcia..e não se preocupem que não estava perante uma decisão propriamente moral de ir festejar em Sevilha ou ir para o calor do meu lar...e sim perante uma mera decisão prática e aparentemente sem efeito ou consequencia moral...parar para dormir ou seguir viagem e chegar a casa às 5h00 da manhã.

Se calhar o facto de ser uma decisão simples e de eu estar cansado é que revelou a natureza imperfeita da "voz".

A verdade é que demorei cerca de 1h a decidir e acabei a sentir-me culpado de não fazer a viagem com grave risco para mim e para o meu carro e ficar a dormir num hotel de estrada.

Os factores que influenciaram a escolha foram racionais e não morais, mas o sentimento de culpa nasceu de factores externos e de reacções pré-programadas a esses factores (o tom de voz da minha mulher, o pedido do meu filho de 5 anos para que eu me despachasse, o facto de gastar mais dinheiro numa altura em que o mesmo não corre com fluidez...etc.etc.), que me fizeram pensar na natureza dessa "voz"...a "voz" moral que nos atormenta nas pequenas e nas grandes coisas.

E eis o que concluí para já...essa voz não é fiável..está demasiado confusa e confundida pelo nosso inconsciente para nos ajudar a decidir seja o que for...não nos diz mais do que uma repetição de regras cuja origem muitas vezes desconhecemos e cuja correcção se aproxima tanto de um atirar de moeda ao ar que, por vezes tem mais lógica fazer isso mesmo...atirar uma moeda ao ar!

O guia que me levou a decidir foi algo que teve tanto de comum como de inesperado...uma sensação física de cansaço.

Esse guia, sim está junto do verdadeiro guia...o nosso Eu inconsciente, aquela parte de nós que processa as infindáveis filas de informação e que nos dá resultados segundo a segundo desse processo, através de sensações físicas e intuições (a sensação de instabilidade que se revela nos nossos membros quando estamos enervados...a sensação de prazer quando estamos a deitar-nos cansados...o pedido de tempo extra de processamento quando temos insónias...etc.etc.).


E eis que os demónios sejam eles cristãos, árabes ou gregos perdem importância e encontramos Deus dentro de nós...nas sensações que nos habilitou a ter...e talvez isto...confiarmos nas nossas sensações a respeito das coisas, seja o que nas crenças se chama fé...fé em nós próprios e em todas as entidades ou movimentos que nos mantiveram vivos (e aos nossos ancestrais) até este momento...e que, quando vemos, estão, como sempre estiveram dentro de nós.

A "voz"...essa é um interlocutor intermédio...somos nós a tentarmos decifrar esses mistérios "divinos"(se calhar) não tão misteriosos...

Estou com fome...é hora de comer...