segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Demónios

Na última semana deparei-me com o meu demónio interior...e eis o que descobri a esse respeito:

"Um demónio (português europeu) ou demónio (português brasileiro), ou ainda, daimon ou daemon é originalmente um tipo de ser que em muito se distanciou, mesmo que ainda se assemelhe, aos génios da mitologia árabe, pois ao longo dos anos a sua descrição mudou, e segundo a maior parte das religiões, que dividem-se no mundo de forma maniqueísta, como judaico-cristão, é um ser intermediário entre o homem e Deus, tipicamente descrita como um espírito do Mal, embora originalmente a palavra demónio, criada pelos gregos, signifique a voz interior, ou o deus que vive dentro de nós e nos aconselha (in wikipedia: Wikipedia: Demónio)"

Dada a minha obsessão com a filosofia dita clássica, é óbvio que foi esta definição sublinhada que mais apelou à minha atenção.

Mas vamos por partes...falava-vos do meu demónio e não das definições de demónio...

O meu demónio (eu) é bastante comum...e foi apelidado pela minha religião (católica) de sentido moral e ético.

Trata-se de uma pequena voz que define as "regras" pelas quais devo conduzir a minha vida pessoal e a minha vida social...um "Grilo Falante" chamado consciência do qual dependo diariamente para me guiar pelo tortuoso mundo das decisões pessoais e profissionais.

Todos nós conhecemos esta "voz"...e em maior ou menor medida deixamo-nos guiar por ela confiando, mais ou menos, no que ela nos diz ou nos pede para fazer.

O problema surge quando subitamente vemos que os "conselhos" que esta "voz" nos dá não nos traz qualquer gratificação pessoal, moral ou profissional...nesse momento, deparamo-nos com o nosso "demónio", e o pior é que nesse momento normalmente apercebemo-nos como ele realmente é...igual a nós...cheio de falhas e incertezas...inseguranças e incoerências...e neste momento é quando procuramos Deus...a Voz sobre todas as outras...a perfeição da decisão.

A forma como o procuramos e encontramos varia de religião para religião ou de crença para crença...mas em alguma medida, pelo menos a procura, é comum a todos nós.

O meu revelou-se numa decisão estúpida e inócua...na decisão de seguir para casa ou parar pelo caminho quando voltava de viagem de Múrcia..e não se preocupem que não estava perante uma decisão propriamente moral de ir festejar em Sevilha ou ir para o calor do meu lar...e sim perante uma mera decisão prática e aparentemente sem efeito ou consequencia moral...parar para dormir ou seguir viagem e chegar a casa às 5h00 da manhã.

Se calhar o facto de ser uma decisão simples e de eu estar cansado é que revelou a natureza imperfeita da "voz".

A verdade é que demorei cerca de 1h a decidir e acabei a sentir-me culpado de não fazer a viagem com grave risco para mim e para o meu carro e ficar a dormir num hotel de estrada.

Os factores que influenciaram a escolha foram racionais e não morais, mas o sentimento de culpa nasceu de factores externos e de reacções pré-programadas a esses factores (o tom de voz da minha mulher, o pedido do meu filho de 5 anos para que eu me despachasse, o facto de gastar mais dinheiro numa altura em que o mesmo não corre com fluidez...etc.etc.), que me fizeram pensar na natureza dessa "voz"...a "voz" moral que nos atormenta nas pequenas e nas grandes coisas.

E eis o que concluí para já...essa voz não é fiável..está demasiado confusa e confundida pelo nosso inconsciente para nos ajudar a decidir seja o que for...não nos diz mais do que uma repetição de regras cuja origem muitas vezes desconhecemos e cuja correcção se aproxima tanto de um atirar de moeda ao ar que, por vezes tem mais lógica fazer isso mesmo...atirar uma moeda ao ar!

O guia que me levou a decidir foi algo que teve tanto de comum como de inesperado...uma sensação física de cansaço.

Esse guia, sim está junto do verdadeiro guia...o nosso Eu inconsciente, aquela parte de nós que processa as infindáveis filas de informação e que nos dá resultados segundo a segundo desse processo, através de sensações físicas e intuições (a sensação de instabilidade que se revela nos nossos membros quando estamos enervados...a sensação de prazer quando estamos a deitar-nos cansados...o pedido de tempo extra de processamento quando temos insónias...etc.etc.).


E eis que os demónios sejam eles cristãos, árabes ou gregos perdem importância e encontramos Deus dentro de nós...nas sensações que nos habilitou a ter...e talvez isto...confiarmos nas nossas sensações a respeito das coisas, seja o que nas crenças se chama fé...fé em nós próprios e em todas as entidades ou movimentos que nos mantiveram vivos (e aos nossos ancestrais) até este momento...e que, quando vemos, estão, como sempre estiveram dentro de nós.

A "voz"...essa é um interlocutor intermédio...somos nós a tentarmos decifrar esses mistérios "divinos"(se calhar) não tão misteriosos...

Estou com fome...é hora de comer...